
Muita gente chega ao consultório com uma frase parecida: "Eu sempre escolho a pessoa errada". Os rostos mudam, os nomes mudam, as cidades às vezes mudam também. Mas o roteiro parece o mesmo: o começo encantado, a sensação de que desta vez vai ser diferente e, depois de um tempo, um final que lembra demais o anterior.
Quando isso acontece uma vez, a gente chama de azar. Quando acontece três, quatro vezes, começa a desconfiar de si: "o problema sou eu?". Quero propor outra pergunta, menos cruel e mais útil: o que, na minha história, está se repetindo?
O que se repete, quando tudo parece diferente
Em 1914, Freud escreveu um texto curto chamado Recordar, repetir e elaborar. Ali ele observa algo que qualquer pessoa reconhece na própria vida: aquilo que não conseguimos lembrar, nem colocar em palavras, tende a voltar como ação. A pessoa não se lembra de uma cena antiga; ela a repete, sem saber que está repetindo.
Anos depois, em 1920, ele descreveu vidas que pareciam seguir um destino: a pessoa traída por todos os amigos, o amor que sempre termina do mesmo jeito. Freud chamou parte dessas ideias de especulação. Vale guardar isso: a repetição é uma forma de pensar o sofrimento, não uma lei que condena ninguém.
A pesquisa também enxerga alguma continuidade. Num estudo alemão que acompanhou pessoas por nove anos, Park e MacDonald (2019) encontraram que o parceiro atual tende a se parecer, em traços de personalidade, com o anterior. O efeito é modesto e pode vir também do contexto: o mesmo bairro, o mesmo trabalho, os mesmos amigos. Ou seja, não é só "dedo podre"; também não é só acaso.
De onde vem o padrão
A teoria do apego, de John Bowlby, ajuda a entender por quê. Desde muito cedo, a criança vai construindo uma espécie de mapa interno a partir de como cuidaram dela: se alguém vinha quando ela chorava, se o carinho era previsível, se era preciso se encolher para ser amada. Esse mapa não fica guardado numa gaveta. Ele orienta, sem que a gente perceba, o que esperamos de um parceiro, o que procuramos e o que aceitamos.
Isso não é destino nem culpa de ninguém. A forma como fomos cuidados influencia, mas de forma moderada (De Wolff e van IJzendoorn, 1997); temperamento, contexto e encontros ao longo da vida também contam. Já escrevi aqui sobre isso em Padrões de apego: por que repetimos os mesmos relacionamentos?.
Quando o conhecido parece amor
Há um detalhe que costuma surpreender: às vezes, aquela química instantânea é, em parte, reconhecimento. Não do outro, mas de um jeito de se relacionar que já vivemos. Num experimento, Brumbaugh e Fraley (2006) mostraram que alguém descrito como parecido com um parceiro antigo ativava mais as expectativas da relação passada. A psicanálise tem um nome para isso: transferência. Levamos para os vínculos novos as marcas dos antigos.
Por isso, o que parece "a pessoa certa" no primeiro encontro pode ser, simplesmente, a pessoa conhecida.
O mito da pessoa certa
Freud também observou que, na paixão, colocamos no outro aquilo que gostaríamos de ser ou de ter. É um movimento bonito e humano. O problema vem depois, quando a pessoa real aparece, com os limites dela, e o encanto dá lugar ao "errei de novo".
A pesquisa recente reforça que a lista de qualidades ajuda menos do que imaginamos. Um estudo com mais de dez mil pessoas em 43 países (Eastwick e colegas, 2025) encontrou que bater com o "perfil ideal" pesa pouco na satisfação. E uma análise com mais de onze mil casais (Joel e colegas, 2020) mostrou que o que mais conta é o que acontece entre os dois: sentir-se cuidado, perceber o compromisso do outro, a qualidade do dia a dia. Uma relação boa não é só encontrada; ela também é construída.
Trocar de pessoa basta?
Nem sempre. Fraley, Gillath e Deboeck (2021) acompanharam mais de quatro mil pessoas e viram que, depois de mudanças de relação, a tendência média era voltar ao jeito antigo de se vincular. Trocar de parceiro muda o cenário; o roteiro, às vezes, continua o mesmo.
O que pode ajudar
Freud chamou de elaboração o trabalho de perceber o padrão, dar nome a ele e, aos poucos, lembrar e falar em vez de só repetir. Não é um clique, nem uma técnica de cinco passos. É um trabalho de tempo. Algumas perguntas podem abrir esse caminho:
- O que costuma me atrair no começo? E o que costuma me fazer sofrer no fim?
- Esse final lembra alguma coisa que eu já vivi antes, mesmo fora do amor?
- Eu escolho, ou eu sou escolhida e vou ficando?
A boa notícia é que a pesquisa descreve pessoas com histórias difíceis que construíram um jeito mais seguro de se vincular, o que se chama de segurança conquistada (Pearson e colegas, 1994; Roisman e colegas, 2002). E, numa meta-análise de 36 estudos, ganhos de segurança no apego ao longo da psicoterapia apareceram junto de resultados melhores (Levy e colegas, 2018). Uma possibilidade, não uma promessa.
Se você se reconheceu aqui, talvez a pergunta não seja "como encontro a pessoa certa?", mas "o que eu repito, e por quê?". Essa pergunta cabe num espaço de escuta, como a psicoterapia.
Assista ao vídeo
Este texto acompanha o primeiro vídeo da série Por que eu repito isso?, no canal do YouTube: Por que eu não consigo escolher a pessoa certa?
Fontes
- Freud, S. Recordar, repetir e elaborar (1914) e Além do princípio de prazer (1920).
- Bowlby, J. Apego e perda, vols. 1 e 2.
- De Wolff e van IJzendoorn (1997). Child Development.
- Park e MacDonald (2019). PNAS.
- Brumbaugh e Fraley (2006). Personality and Social Psychology Bulletin.
- Eastwick e colegas (2025). Journal of Personality and Social Psychology.
- Joel e colegas (2020). PNAS.
- Fraley, Gillath e Deboeck (2021). Journal of Personality and Social Psychology.
- Levy e colegas (2018). Journal of Clinical Psychology.
Este conteúdo é informativo e não substitui psicoterapia. Se você está em sofrimento intenso, ligue 188 (CVV, 24 horas, gratuito).




